Fazer para ter aceitação ou para alegrar o coração?

Alguns dias atrás estava arrumando meus cadernos e materiais escolares que minha mãe guardou desde a pré-escola. Encontrei cadernos ‘perfeitos’, muito bem encapados pela minha mãe, com minha letra ‘linda e super bem feita’, desenhos ‘caprichados’, sem nenhuma dobrinha nos cantos das páginas, sem marca da pressão da caneta para a página seguinte pois usava um ‘forro’ feito de cartolina entre uma folha e outra. Os cadernos eram a prova concreta da ‘excelente aluna’ que eu era desde os meus primeiros anos escolares.

Enquanto folheava esses cadernos uma sensação de angústia se apoderava de mim, e até um certo enjoo, junto com tristeza, desânimo, cansaço, falta de esperança… não me lembro das matérias, nem de me interessar por elas, minha lembrança é de ‘obediência’ ao que me era pedido e total ‘submissão ao sistema’, uma sensação de perda de tempo, tantos anos da minha vida fazendo coisas pelas quais não tinha o menor interesse, e pelas quais era ‘recompensada’ com excelentes notas, com a admiração e o incentivo dos professores e dos meus pais…

Então encontrei algumas folhas de rascunho meio amassadas e rabiscadas, com anotações desordenadas espalhadas pela página, e alguns rascunhos de desenhos – era uma peça de teatro que eu e algumas amigas tínhamos criado e encenado entre nós mesmas! Me enchi de alegria, energia, entusiasmo, lembranças felizes ao encontrar algo que fazia sentido para mim! Apenas algumas folhas valiosas de papel amassado em meio a caixas de cadernos perfeitos sem sentido.

Me dei conta do quão opressivo tinha sido meu processo escolar e me perguntei qual era minha motivação em ter sido tão ‘boa aluna’ se tudo era tão sem sentido para mim… Percebi que o que buscava era a aprovação e a aceitação das outras pessoas. Fiquei muito triste em constatar isso e imagino que minha mãe (e também meus professores) teriam preferido que minha motivação para ser ‘boa aluna’ tivesse partido de um interesse genuíno pelos estudos, que me traria aprendizado verdadeiro e uma vida escolar mais feliz.

Eu gostaria de ter conseguido não me importar tanto com a aprovação dos outros e ter feito mais ‘bagunça’, mais amizades, mais teatros significativos na minha infância.

Espero que um dia nosso sistema escolar e a educação que damos às crianças em nossa sociedade em geral se volte mais para o interior de cada criança, para que elas se conectem consigo mesmas, descubram seus interesses verdadeiros e aquilo que precisam para ter sentido e felicidade em suas vidas. Que tenham a liberdade de fazer coisas para alegrar seus corações e não apenas para ter aceitação.

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