Escutar sem conduzir

Escutar sem conduzir:

Quando a empatia devolve a pessoa a si mesma

(Por Sandra Caselato, 2026)

Em um retiro internacional de Comunicação Não-Violenta, passei cerca de uma hora escutando uma participante que atravessava um momento pessoal muito difícil. Algo acontecido durante o retiro havia intensificado o que ela estava vivendo, e ela estava em dúvida se queria ir embora ou permanecer.

Durante aquela hora, procurei simplesmente acompanhá-la. Escutei o que estava acontecendo, seus sentimentos e necessidades, suas dúvidas, os diferentes movimentos que apareciam enquanto ela falava. Não tentei ajudá-la a chegar a uma decisão. Não procurei convencê-la a ficar, nem legitimar que fosse embora.

Ao final, perguntei como ela estava e como havia sido para ela aquela conversa.

A resposta me tocou profundamente.

Ela contou que havia percebido algo sobre si mesma que nunca tinha visto com tanta nitidez. Trazia uma história de muita violência e trauma desde a infância, em um ambiente familiar abusivo. Ao longo da vida, havia desenvolvido uma enorme sensibilidade para perceber o que as pessoas ao seu redor esperavam dela.

Não era exatamente uma escolha consciente de “agradar os outros”. Era algo muito mais sutil, que, em algum momento de sua vida, desenvolveu como uma espécie de mecanismo de sobrevivência. Quando não atender às expectativas de alguém pode trazer consequências dolorosas, aprender a ler rapidamente a outra pessoa — seu tom de voz, sua expressão, sua aprovação ou desaprovação — pode se tornar uma forma de proteção.

E ela percebeu que estava fazendo isso comigo.

Enquanto me contava sua dúvida sobre permanecer ou deixar o retiro, uma parte dela estava, silenciosamente, tentando descobrir: o que Sandra acha que eu deveria fazer? Ela quer que eu fique ou que eu vá?

Em algum nível, ela procurava em mim uma resposta para poder se orientar.

Ela então me contou que, antes de falar comigo, havia pedido escuta sobre a mesma questão para outra pessoa no dia anterior, e que, naquela conversa, após receber empatia, a pessoa deu sua opinião, sugerindo que ela permanecesse no retiro até o final.

Comigo, a experiência havia sido diferente.

Em determinado momento, ela chegou a me perguntar diretamente qual era a minha opinião. Eu disse que não tinha preferência sobre sua decisão. Se ficasse, eu acolheria sua escolha. Se fosse embora, também.

Mas o mais significativo para ela não foi eu ter dito isso.

Foi ela ter sentido isso.

Durante aproximadamente uma hora, mesmo estando extremamente atenta aos sinais que pudessem revelar o que eu esperava dela, ela contou que não havia conseguido encontrar em mim uma direção para a qual eu estivesse tentando conduzi-la. Nenhuma pequena expressão de aprovação ou desaprovação. Nenhuma mudança de tom que indicasse a resposta “certa”. Nenhuma tentativa sutil de fazer com que chegasse à conclusão que eu considerava melhor.

E isso produziu nela dois movimentos interessantes e aparentemente contraditórios.

De um lado, um profundo relaxamento.

Ela podia ser quem era. Podia sentir o que sentia. Podia decidir ficar ou partir. Não precisava descobrir o que fazer para continuar pertencendo ou sendo aceita.

De outro lado, apareceu algo que ela descreveu quase como um medo:

“Então sou eu que tenho que decidir.”

A ausência de uma expectativa externa a colocou diante da própria liberdade — e, junto com ela, da responsabilidade pela própria vida.

Essa experiência ficou comigo porque me fez pensar que há uma diferença importante entre não dar conselhos e não tentar conduzir o outro.

Podemos aprender técnicas de escuta e evitar frases como “se eu fosse você…”. Podemos fazer perguntas abertas, espelhar sentimentos e necessidades e usar palavras “adequadas”. E, ainda assim, internamente, podemos estar esperando que a pessoa chegue a determinado lugar.

Essa incongruência pode aparecer numa microexpressão, numa entonação, numa pergunta aparentemente inocente. Às vezes nem nós percebemos que estamos fazendo isso.

E algumas pessoas aprenderam, por necessidade, a perceber esses sinais com enorme precisão.

Por isso, talvez uma das dimensões mais profundas da empatia não esteja nas palavras que usamos, mas no lugar interno a partir do qual escutamos, e nossa coerência com este lugar.

Escutar alguém sem abandonar nosso discernimento, nossos valores ou nossa humanidade, mas também sem transformar nossa perspectiva em direção para a vida daquela pessoa.

Aquela conversa, reforçou de uma maneira muito concreta algo que considero central na Comunicação Não-Violenta: empatia não é levar alguém até onde acreditamos que ela deveria chegar.

É oferecer uma qualidade de presença e congruência na qual a pessoa não precise mais procurar em nós a resposta, e, quando isso acontece, talvez ela possa finalmente começar a escutar as próprias respostas.

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